sábado, 10 de outubro de 2009

Tarantino e Shakespeare são uns bastardos!



Em um dado momento de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA, 2009), novo petardo do genial diretor Quentin Tarantino, o Tenente Aldo Raine (interpretado por um cínico e inspirado Brad Pitt), ao reunir pela primeira vez seu grupo especial, os tais bastardos do título, explicita sua missão: matar nazistas.


"Nazistas não têm porra de humanidade nenhuma. Eles são os peões de um maníaco assassino em massa antijudeu, e precisam ser destruídos" - justifica Aldo a seus comandados. Movidos por um forte desejo de vingança (muitos são de origem judaica ou sofreram barbáries nas mão dos germânicos), os Bastardos cumprem avidamente seus desígnios e passam a escalpelar soldados alemães território francês adentro. A vingança também move Shoshanna Dreyfus (Melanie Laurent), única sobrevivente de uma família de camponeses massacrada pelo Reich, que anos mais tarde traça um plano que envolve incendiar (literalmente) os maiorais do exército alemão e o próprio Hitler. Com esse mote, Bastardos Inglórios injeta um novo ânimo à carreira do cineasta, após o (merecidamente) fracassado À Prova de Morte (ainda inédito no Brasil, mas facinho de ser encontrado no comércio ilegal).


Em reportagem da revista Época, edição 594, Luis Antônio Giron traz um interessante panorama sobre a vingança perpretada pelos personagens do longa de Tarantino, citando também outras situações no mundo do crime, esporte e música relacionadas a esse sentimento, um dos mais primitivos da humanidade.


Vingança pode ser definida como o ato ou efeito de vingar-se através de ação lesiva, praticada em nome próprio ou alheio, em favor de alguém que é visto como ofendido ou lesado, promovendo assim a punição, retaliação ou represália contra aquele que é ou seria o ofensor causador desse dano. Embora a moral da sociedade ocidental classifique o desejo de revanche como mesquinho, em várias culturas a retaliação é melhor compreendida como a satisfação de necessidades essenciais. Segundo um estudo recente realizado na Universidade de Zurique, quando uma pessoa pune alguém, há um aumento de fluxo sanguíneo no estriado dorsal. Essa região, também conhecida como cérebro reptiliano, é uma das mais antigas na história da evolução de nossa espécie e nela se localiza uma série de sensações ligadas à satisfação de necessidades básicas. Corrigir uma injustiça daria prazer, assim como matar a fome.


Não só os personagens de Tarantino têm tanta fome. Um dos mais complexos e fascinantes personagens já criados também se alimenta desse sentimento. Em Hamlet, tragedia de William Shakespeare, suposamente escrita entre 1599 e 1601, a vingança também serve como mote. A peça, passada na Dinamarca, reconta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, o rei, executando seu tio Cláudio, que o envenenou e em seguida tomou o trono, casando-se com a mãe de Hamlet. A peça, atualmente encenada no Brasil por Wagner Moura (Tropa de Elite), discute temas como traição, incesto, moralidade, o ser, o não ser e outras questões. Diversos aspectos da obra são objeto de análise por estudiosos, em especial questões ligadas à personalidade do protagonista.
De fato, o príncipe da Dinamarca é um personagem controverso e fascinante. Muitos o consideram como a personificação da dúvida, da hesitação e da inação. Outros, um símbolo de vingança. Freud considerou-o um exemplo de suas teorias sobre o Complexo de Édipo.


Diante de uma sociedade cada vez mais opressiva, personagens guiadas por desejo de vingança geram uma imediata identificação com o público, gerando um efeito catártico e aliviando nossa própria agressividade e nossos estresses. Vão ao cinema e vejam Bastardos Inglórios. E sintam-se vingados.

2 comentários:

  1. Olá, Charlles!
    É com muito prazer que vejo seu Bolg, e pelo que percebo, estreio os comentarios.
    Gostaria de parabenizá-lo pelo post, muito bem elaborado, diga-se de passagem.
    Grande abraço!

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  2. Valeu, Andrier.
    Esse blog veio como mais uma ferramenta pra unirmos ciência e arte em um espaço democrático e isento de qualquer censura.
    Obrigado pelo apoio. Mais tarde tem atualizações em neurociências...

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