quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Só 10% de nossa capacidade mental?

Um dia desses, passei na BR 230 (provavelmente indo ao trabalho) e me deparei com um outdoor de divulgação de um motel aqui de João Pessoa. Lá estava escrito: "Você sabe por que só conseguimos usar 10% do nosso cérebro?". Mais à frente, lia-se, em um segundo outdoor: "Porque 90% só pensa naquilo". Piadinhas infames eróticas à parte, resolvi postar para esclarecer um pouco sobre esse mito otimista acerca do uso do nosso amigo, o cérebro.
Infelizmente, essa crença não faz o menor sentido. Só 10% não bastam. Na verdade, usamos TODO o nosso cérebro diariamente. Se grandes áreas cerebrais não fossem usadas, uma eventual lesão não causaria eventuais problemas. Técnicas de neuroimagem funcional, que permitem medir a atividade cerebral, mostram que tarefas simples são suficientes para produzir atividade em todo o hemisfério cerebral. Portanto, o cérebro precisa de todo o seu conjunto para funcionar de maneira eficaz.
Provavelmente, a persistência dessa idéia só perdura por tanto tempo por ser extremamente cômoda, otimista e por ajudar a vender livros de auto-ajuda. Afinal, se todo mundo tem tanta capacidade mental sobrando, não existiriam idiotas, apenas vários Einsteins e Da Vincis em potencial que não aprenderam a usar uma parte suficiente do cérebro.

sábado, 10 de outubro de 2009

Tarantino e Shakespeare são uns bastardos!



Em um dado momento de Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA, 2009), novo petardo do genial diretor Quentin Tarantino, o Tenente Aldo Raine (interpretado por um cínico e inspirado Brad Pitt), ao reunir pela primeira vez seu grupo especial, os tais bastardos do título, explicita sua missão: matar nazistas.


"Nazistas não têm porra de humanidade nenhuma. Eles são os peões de um maníaco assassino em massa antijudeu, e precisam ser destruídos" - justifica Aldo a seus comandados. Movidos por um forte desejo de vingança (muitos são de origem judaica ou sofreram barbáries nas mão dos germânicos), os Bastardos cumprem avidamente seus desígnios e passam a escalpelar soldados alemães território francês adentro. A vingança também move Shoshanna Dreyfus (Melanie Laurent), única sobrevivente de uma família de camponeses massacrada pelo Reich, que anos mais tarde traça um plano que envolve incendiar (literalmente) os maiorais do exército alemão e o próprio Hitler. Com esse mote, Bastardos Inglórios injeta um novo ânimo à carreira do cineasta, após o (merecidamente) fracassado À Prova de Morte (ainda inédito no Brasil, mas facinho de ser encontrado no comércio ilegal).


Em reportagem da revista Época, edição 594, Luis Antônio Giron traz um interessante panorama sobre a vingança perpretada pelos personagens do longa de Tarantino, citando também outras situações no mundo do crime, esporte e música relacionadas a esse sentimento, um dos mais primitivos da humanidade.


Vingança pode ser definida como o ato ou efeito de vingar-se através de ação lesiva, praticada em nome próprio ou alheio, em favor de alguém que é visto como ofendido ou lesado, promovendo assim a punição, retaliação ou represália contra aquele que é ou seria o ofensor causador desse dano. Embora a moral da sociedade ocidental classifique o desejo de revanche como mesquinho, em várias culturas a retaliação é melhor compreendida como a satisfação de necessidades essenciais. Segundo um estudo recente realizado na Universidade de Zurique, quando uma pessoa pune alguém, há um aumento de fluxo sanguíneo no estriado dorsal. Essa região, também conhecida como cérebro reptiliano, é uma das mais antigas na história da evolução de nossa espécie e nela se localiza uma série de sensações ligadas à satisfação de necessidades básicas. Corrigir uma injustiça daria prazer, assim como matar a fome.


Não só os personagens de Tarantino têm tanta fome. Um dos mais complexos e fascinantes personagens já criados também se alimenta desse sentimento. Em Hamlet, tragedia de William Shakespeare, suposamente escrita entre 1599 e 1601, a vingança também serve como mote. A peça, passada na Dinamarca, reconta a história de como o Príncipe Hamlet tenta vingar a morte de seu pai, o rei, executando seu tio Cláudio, que o envenenou e em seguida tomou o trono, casando-se com a mãe de Hamlet. A peça, atualmente encenada no Brasil por Wagner Moura (Tropa de Elite), discute temas como traição, incesto, moralidade, o ser, o não ser e outras questões. Diversos aspectos da obra são objeto de análise por estudiosos, em especial questões ligadas à personalidade do protagonista.
De fato, o príncipe da Dinamarca é um personagem controverso e fascinante. Muitos o consideram como a personificação da dúvida, da hesitação e da inação. Outros, um símbolo de vingança. Freud considerou-o um exemplo de suas teorias sobre o Complexo de Édipo.


Diante de uma sociedade cada vez mais opressiva, personagens guiadas por desejo de vingança geram uma imediata identificação com o público, gerando um efeito catártico e aliviando nossa própria agressividade e nossos estresses. Vão ao cinema e vejam Bastardos Inglórios. E sintam-se vingados.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Como vai você?

Geralmente, esse é o primeiro questionamento em uma sessão psicoterápica. Momento no qual terapeuta e paciente iniciam sua geralmente longa jornada através dos meandros da psique humana. E é com essa pergunta que dou início a esse novo projeto, o blog Mente, Arte e Vida.
Como foi dito no layout, esse espaço será dedicado a discutir temas relacionados à Psiquiatria, Psicanálise e Cultura Pop em geral (filmes, livros, séries, e por aí vai). Serão trazidos temas atuais, extraídos das mais variadas fontes - variadas mesmo! - vale até mesmo falar sobre a drunkorexia da personagem de Bárbara Paz na novela das oito (ou nove?).
Trataremos aqui sobre atualidades acerca dos mais diversos transtornos mentais e suas implicações no cotidiano do paciente e de seus familiares, novidades quanto ao diagnóstico, terapêutica e prognóstico, psicoeducação e neurociências, sempre pautados na ética e na responsabilidade que o tema exige.
Conhecer mais sobre mente, cérebro, vida e sobre si mesmo não precisa ser encarado como um Bicho de Sete Cabeças (qualquer dia, discorro aqui sobre esse filme horrendo, parcial e maniqueísta). Mas é um exercício lento e poderoso, ora devastador, mas muito revelador. Recomendo.
Sigamos então. Pensando mais. Apreciando mais. Vivendo mais. Até logo.